A invisibilidade na sociedade é o que ofende a mulher, diz vice-prefeita do Recife

Estudante de nutrição, professora, advogada e líder política por vocação. Isabella de Roldão foi eleita vereadora em seu primeiro pleito, em 2012 e hoje ocupa o cargo de vice-prefeita do Recife. Sempre ligada a pautas sociais e de direitos humanos, durante sua trajetória foi quebrando paradigmas, tornando-se a  primeira mulher a ocupar um cargo executivo na prefeitura da capital pernambucana. Em conversa exclusiva com a Revista da Abrig, Isabella falou sobre gratidão, a responsabilidade de estar no cargo que ocupa e sua representatividade para outras mulheres e crianças e como os diferentes universos femininos e masculinos podem e devem se complementar, abrindo caminhos para ambientes de trabalho mais receptivos para mulheres e mães. Isabella também destacou a importância de refletirmos sobre como as  nossas atitudes individuais impactam no coletivo, bem como na importância de promover a igualdade entre todos.


1) Você chegou quebrando paradigmas, tornando-se a primeira mulher eleita a ocupar um cargo executivo na Prefeitura do Recife. Quais foram as dificuldades que você enfrentou para chegar aonde você está hoje? Houve algum tipo de preconceito por você ser mulher? 
Eu tenho muita gratidão a Deus pela possibilidade de estar onde eu estou hoje, mas sinto também no meu coração muita responsabilidade pelos caminhos que eu vou representar paras mulheres. A gente passa a se enxergar em espaços nunca vistos. Então a gente começa a permitir que as crianças, por exemplo, olhem e digam: “poxa, mãe, eu quero ser também vice-prefeita, eu quero ser, prefeita, presidente”... Mas eu acho que o preconceito, de uma forma geral, a gente vive sempre. Na política talvez seja ainda pior porque é um ambiente de poder, inicialmente permeado por uma disputa natural e o universo masculino teve a predominância, historicamente os espaços de poder foram feitos e reservados para os homens. Acho que a gente vive esse trânsito, desconstruindo preconceitos, construindo espaços e caminhos, vencendo os preconceitos com os nossos posicionamentos, exemplos e atitudes.


2) Você acha que são comuns as perguntas feitas a você que não teriam sido feitas a um homem na sua posição?
Eu acho que existe um certo pudor na hora de fazer perguntas, mas percebo que determinadas colocações, sim, são feitas por eu ser mulher. Quer ver uma besteira, mas que retrata bem essa diferença de tratamento? Você está em uma roda de homens de trabalho e, por acaso, um homem fala um palavrão. Aí ele já olha para você e pede desculpa, como se aquilo ofendesse demais a gente. É preciso entender que não é o palavrão que me ofende, o que me ofende é a invisibilidade. Tem determinadas coisas que que ficam subentendidas no universo do ser mulher.


3) A empatia é comumente apontada como uma característica bem feminina. Você acha que por essa razão estamos tendo bons resultados dos governos femininos no enfrentamento da pandemia?
Acho sim. Acho que a gente se complementa. Os universos diferentes, eles se complementam, não há superioridade. Nenhum é melhor do que o outro por ser mulher ou por ser homem. Mas há de fato uma forma de sentir diferente, de perceber determinadas coisas que talvez a gente recebe muito melhor. E a partir dessa percepção, a gente consegue tomar decisões e até atitudes mesmo que fazem a coisa acontecer. A gente foi educada nesse contexto, quando a gente para pra pensar no universo do ser mulher, basta lembrarmos como é que fomos educadas desde pequena: tendo que dar conta de um monte de coisas domésticas e ajudar a mãe, estudar e, ao mesmo tempo, com aquela supervisão do tipo “senta direito, menina”. E você tinha que estar se virando nos trinta para dar conta de tudo. Então, isso aguça na gente os sentidos, nossas habilidades de lidar com muita coisa ao mesmo tempo. Quando eu assumo um espaço, um ambiente público, eu me preocupo com o sentimento das pessoas que trabalham comigo. Dentro do meu gabinete, eu quero saber se está todo mundo bem, se todos estão confortáveis fazendo tal função, por exemplo.


4) Pegando como gancho essa diferença de visão entre homens e mulheres e como a gente se complementa, tem uma expectativa crescente de que mulheres líderes sejam menos suscetíveis a corrupção e que também sejam melhores gestoras dos recursos públicos. Qual é a sua avaliação sobre isso? 
Olha, eu não tenho dados científicos sobre isso, mas nós somos mais exigentes. Por natureza nós somos mais exigentes. Por exemplo, se você perguntar a maioria das meninas, das mulheres, elas vão dizer que as mães sempre foram muito mais exigentes do que os pais. O pai dizia que trabalhou o dia todo e quando chegava em casa não queria brigar com a filha, com o filho... E a mãe é quem ficava com a obrigação de educar, de ser mais rígida. E tem coisas que não chegam no nosso universo, ainda fica na panelinha masculina. Talvez isso seja um dado para se avaliar no quesito da corrupção. E que detalhe, não é a corrupção só no universo público, é a corrupção numa forma geral.


5) Falamos sobre as dificuldades que as mulheres encontram na área política, mas quando vamos para o mercado de trabalho, também encontramos diferenças. O número de mulheres ocupando cargos de liderança é muito baixo em relação aos homens, mesmo elas sendo mais instruídas. E com essa pandemia, a participação feminina cai ao menor nível dos últimos trinta anos. Como você acha que a gente pode reverter essa situação? 
Esse é um tema bem importante. A gente precisa tirar da invisibilidade a economia do cuidado. A gente tem dados, por exemplo, de que a quantidade de horas que uma mulher dedica a amamentação durante os seis primeiros meses de vida da criança gira em torno de 70 horas por semana. Só amamentando, fora os cuidados com a criança e as demandas próprias e de manutenção da casa. Então, veja, enquanto eu me mantiver sob a invisibilidade e a obscuridade que o cuidado nasceu para o universo da mulher, a gente vai continuar ganhando menos, mesmo estando mais preparadas, mesmo tendo sentidos mais aguçados, mesmo a gente conseguindo desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo, sabe por quê? Porque a nós recai sempre o cuidado. Porque quem acorda de madrugada para cuidar de uma criança doente é a mulher. Se um idoso da família adoecer, quem vai levar para o médico é a mulher. Friamente falando, se você é dona de uma empresa e está passando por uma dificuldade hoje com a pandemia, e você tem um homem ou uma mulher em grau de igualdade para contratar, quem você vai contratar? Então, veja, naturalmente, a manutenção da invisibilidade da economia do cuidado vai fazer com que permaneça a contratação da maioria masculina, vai permanecer os homens ganhando mais do que as mulheres. A gente precisa tirar essa questão dessa invisibilidade, trazer isso à tona, ter essa consciência de gênero, para que a gente consiga, de fato e de direito, construir um universo de igualdade. 


6) Está cada vez mais comum ouvirmos de mulheres jovens que pretendem adiar a maternidade ou então não ter filhos para poder se dedicar à carreira. Você acha que é necessário criarmos ambientes de trabalhos mais acolhedores às mulheres com filhos? Que estratégias poderíamos implementar para tentar melhorar essa proporção entre homens e mulheres em cargos de liderança?
A gente precisa transformar os ambientes para deixá-los mais acolhedores para as mulheres. E falar sobre isso não é encher esse ambiente de rosa. São ambientes que, de fato, entendam, respeitem e acolham, por exemplo, uma mulher que tem um bebê, que ainda mama exclusivamente e precisa voltar ao trabalho. Então, o mínimo seria ter uma sala para amamentar, uma sala para desmamar. O que a gente precisa é se desconstruir, porque somos todas e todos machistas. Estamos eternamente nessa desconstrução para que a gente consiga ser pessoas melhores. E aí, a gente precisa desconstruir o machismo no ambiente de trabalho para que, de fato, tornemos o ambiente de trabalho extremamente positivo para todas as pessoas que nela vão estar.


7) Quais são as três principais mudanças que você acha que precisam ocorrer no país e por quê?
Tem uma mudança que eu acho que é base para todas as outras. Eu tenho muito desejo, como primeira mulher vice-prefeita da minha cidade, de despertar nas pessoas o sentimento de pertencimento. Nós brasileiras e brasileiros precisamos nos dar conta de que a cidade é nossa, que o país é nosso. A gente precisa sair dessa ideia de que tudo é culpa do governo. Tem um monte de coisa que a culpa é do governo, mas tem um monte de coisa que a culpa é nossa. A atitude de jogar o lixo no chão é nossa. Então, o sentimento de pertencimento é uma grande virada de chave para mudança de comportamento, de uma forma geral. Também tenho um desejo muito forte de despertar nas pessoas a sustentabilidade. A gente precisa compreender que nós somos o coletivo, nós somos o planeta. O que eu estou fazendo com o planeta está refletindo na minha pessoa e nas gerações que vão ficar. Nesses quatro anos no mandato ou durante os anos de vida que me for permitido viver, quero muito trabalhar com o sentimento de pertencimento para que a gente desperte, cuide do que é nosso, sinta que é nosso, compreenda que é nosso. Eu quero trabalhar com o processo da sustentabilidade para que a gente perceba que as nossas atitudes individuais refletem mais do que nunca no coletivo e eu acho que é uma grande lição que fica da pandemia para gente. E a terceira é a construção de uma sociedade igual pra todas e todos, onde não haja distinção de sexo, onde não haja distinção de raça, de crédito. Onde as pessoas mais vulneráveis tenham sim a mesma oportunidade. E que a gente consiga enxergar nesse ambiente de igualdade, esse sentimento de pertencimento e de sustentabilidade da vida. Então, eles se casam. 



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