COP 26 - A Natureza em meio as reflexões sobre manifestações, governança e tecnologia

No contexto da COP26, o dia da Natureza ( discutido no último sábado 7/11) tem um significado específico: floresta, mudança no uso da terra, agricultura, campos em que há importantes desafios. Além da biodiversidade e outros benefícios ambientais, as árvores também desempenham um papel crítico na absorção de dióxido de carbono à medida que crescem, reduzindo assim o aquecimento global. Mas quando são cortados e queimados ou se decompõem, liberam esse carbono na atmosfera. De acordo com o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas, cerca de 23% das emissões globais de gases de efeito estufa vêm da agricultura, silvicultura e outros usos da terra.


Acompanhei de perto alguns paineis e o que se tem feito é a busca por acelerar ações de proteção e restauração de florestas e outros ecossistemas críticos, para avançar em direção à agricultura sustentável e ao uso da terra. No Diálogo de Florestas, Agricultura e Comércio de Commodities (FACT), os principais países produtores e consumidores de commodities agrícolas como cacau e soja estão se unindo para tomar medidas para proteger as florestas, enquanto promovem o comércio e o desenvolvimento globais sustentáveis. Também há a união de países para colaborar em política, inovação e investimento para acelerar a transição para a agricultura sustentável, como podemos observar inclusive nas discussões da comitiva do agronegócio representando o Brasil. Como não há caminho para a net zero sem proteger e restaurar a natureza, ou se faz ou se paga quando o assunto são os planos climáticos. Com apenas 3% do financiamento climático global gasto em soluções baseadas na natureza e apenas 1% para adaptação, há um trabalho árduo para integrar e mobilizar financiamento para a natureza de fontes públicas e privadas.


A Mãe Natureza, ou “Pachamama”, como muitos países latinoamericanos a chamam, assumiu o centro das atenções nesse momento em que a Cúpula do Clima chega na metade. A natureza é crítica para a nossa sobrevivência: De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a atividade humana afetou quase 75 % da superfície da Terra e colocou cerca de um milhão de espécies de animais e plantas na lista de espécies ameaçadas de extinção. E foi em defesa disso e por mais ação imediata que vimos dezenas de milhares marcharem por Glasgow pelo segundo dia consecutivo embaixo de chuvas, no sábado, para participar de manifestações mundiais. O uso da terra e agricultura sustentável também teve voz no papel dos pequenos agricultores, que produzem 80% dos alimentos consumidos em todo o mundo. Mas ao final do dia o balanço oficial trouxe dados expressivos que precisam ser considerados em meio a tantas negociações. Entre eles, a presidência da COP26 anunciou que os governos de 45 países se comprometeram a investir em um uso mais natural e sustentável do solo. No caso do Brasil, representantes do Ministério da Agricultura apresentaram o ABC+, o Plano Setorial de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária,  plano para reduzir a emissão de carbono na agropecuária. Ele foi apresentado pelo secretário de Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação do Mapa, Fernando Camargo, e tem a meta de reduzir a emissão de gases que agravam o efeito estufa.


Há algo que não pode ser desprezado na COP26: para além do entendimento de que conter o aquecimento global é uma demanda universal urgente, é fato que essa discussão atingiu um nível onde todos estamos absolutamente conectados. Essa percepção tem duas consequências mais evidentes.


A primeira delas é que quando lidamos com questões relacionadas à geração de energia e utilização de recursos naturais, precisamos entender que reivindicações e manifestações como aquelas que observamos durante a primeira semana da COP26 estão muito mais próximas do nosso cotidiano. Não estou insinuando que é necessário prestar atenção nesse movimento para elaborar estratégias de relacionamento. O que quero dizer com isso é que nossa visão de sustentabilidade precisa incluir, de fato, o entendimento de que a governança de recursos naturais é absolutamente sem fronteiras. Isso significa acostumar-se com mesas de discussões cada vez mais amplas e participativas, tanto em número quanto em qualidade. E se queremos avanços concretos em uma agenda climática positiva, precisamos fomentar isso.


Para um brasileiro acostumado a associar geração de energia elétrica à disponibilidade de recursos hídricos – e que trabalha em uma empresa cujo principal ativo é uma usina hidrelétrica integrada ao sistema nacional –, é fácil enxergar oportunidades nesse movimento. Em um horizonte mais imediato, precisamos considerar – como cidadãos e empresas – a importância de trazer o tema redução de emissões para o âmbito da licença social.


Ao mesmo tempo, é preciso compreender que é a energia da participação o principal vetor capaz de superar qualquer aresta, na relação entre países ou em questões envolvendo regulação.


Quanto à tecnologia necessária para a transformação, o que posso dizer, como diretor de uma das maiores geradoras privadas de energia do país, é que na nossa caminhada a um futuro com oferta de energia limpa, não demanda revoluções. Enquanto escrevo esse artigo aqui em Glasgow, é possível que a região Nordeste tenha batido mais um recorde de geração de energia eólica, com potência suficiente para abastecer toda aquela região, com folga. Você sabia disso? Ou seja estamos vendo ações sendo feitas como por exemplo rumo ao próximo passo dessa trajetória: o hidrogênio verde, tecnologia apresentada pela SPIC Brasil na COP26, em sessões que debateram junto com renomados pesquisadores da USP nesse dia da Nature a transição energética do Brasil e a matriz brasileira como passos fundamentais na proteção de nossa Mãe-Terra.


Comitê de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Abrig


Roberto Monteiro - Diretor de Comunicação e Relações Institucionais da SPIC Brasil. 


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