"A principal dificuldade é se permitir ser mulher num ambiente tão masculinizado"​, diz assessora jurídica da Secretaria da Mulher na Câmara

Lia Noleto, assessora jurídica na Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, participou como palestrante da 1ª Conferência Internacional de Mulheres em RIG, realizada no dia 8 de agosto em Brasília. Durante o evento, falou com a equipe Abrig sobre as dificuldades encontradas pelas mulheres no ambiente político, as conquistas que ampliam a representação feminina e como os homens podem contribuir para oportunidades mais igualitárias entre os gêneros. Acompanhe a seguir:


 ABRIG: Quais são os principais avanços alcançados recentemente dentro do espaço político no que se refere à representação feminina?


LIA NOLETO: Recentemente, nós fizemos alguns recortes interessantes, como regulamentar o que é a violência política. Outro grande avanço nesta legislatura foi a modificação da regra para o fundo partidário. O fundo partidário é um auxílio que o partido recebe anualmente e é calculado pela quantidade de votos em deputados federais. Nós conseguimos fazer um recorte para que os votos em mulheres tenham peso dois. Ou seja, se um voto em homem vale x, na mulher valerá 2x. Essa foi uma inteligência legislativa para que houvesse maior interesse em candidaturas femininas. Há, dentro da Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, um observatório que faz projeções de todas as legislações voltadas para as mulheres e dos respectivos impactos dessas leis – se atingiu ou não os objetivos, por exemplo. Inicialmente, quando foi criada a cota de 30% do fundo eleitoral para candidaturas femininas, imaginava-se que, a partir disso, haveria maior representação de mulheres. Entretanto, depois de um período de aplicação dessa norma, a representação permaneceu em 15% e, apesar de ter havido um aumento de candidatas, não houve efetividade nas candidaturas femininas. Por isso, a alteração na regra do fundo partidário. Acreditamos que, a partir de agora, haverá uma mudança real dentro dos partidos.


ABRIG: Em um ambiente predominantemente masculino, quais dificuldades as mulheres encontram?


LIA NOLETO: Ser mulher. Acho que a principal dificuldade é ser - e se permitir ser - mulher num ambiente tão masculinizado. Dentro do parlamento nós encontramos inúmeros desafios diariamente, seja na proposição de uma ideia ou na abordagem utilizada. O fato de maternar, dentre outras atividades ligadas ao gênero, implicam muito nos desafios. De maneira geral, as mulheres são contratadas pelo o que elas entregam, enquanto os homens são contratados pelo o que um dia podem vir a entregar, e isso aumenta a disparidade na disputa por vagas e por reconhecimento.


 ABRIG: Como os homens podem contribuir para que as mulheres tenham acessos e oportunidades mais igualitárias não só na política, mas no mercado de trabalho como um todo?


LIA NOLETO: Talvez o exercício da empatia, pelos homens, seja a grande solução. Os homens não vão abrir espaço para a gente ocupar. Quando estávamos fazendo a defesa de representação almejávamos por 30% de vagas garantidas, mas os homens foram contra. Eles se apropriaram desses espaços políticos há anos. A solução encontrada foi o fundo partidário, que é um incentivo para que as mulheres se candidatem e sejam votadas. Ainda não conseguimos ter força o suficiente para aprovar, por exemplo, uma reserva de cadeiras porque nós [mulheres] não temos representatividade efetiva. O poder não é dado às mulheres. O poder é tomado, muitas vezes, na força - na força da disputa eleitoral, do exercício da atividade de relações institucionais e governamentais e da atuação legislativa. 


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