Janaína Lima: “O país que não prioriza a educação não se desenvolve e não prospera”.

A vereadora de São Paulo, Janaína Lima (NOVO), colocou a primeira infância como bandeira de seu mandato desde o primeiro dia em que foi eleita. Depois de muitos obstáculos impostos, conseguiu ver aprovada a lei que mudou a cara de como a sociedade paulistana enxerga os pequenos cidadãos: o Marco Legal da Primeira Infância.


As dificuldades giram todas em torno de, como mulher, viver o dia a dia de um ambiente altamente masculino e machista: a política. Mas, Janaína ocupou os espaços e não pediu licença. “Cheguei lá por voto popular. Eu represento uma parcela da sociedade que acredita nas ideias que eu defendo e espera o meu compromisso com esses princípios e valores. Portanto, não peço licença e não aceito que nenhum homem, ninguém retire um milímetro do espaço que eu conquistei pelo voto popular”, afirmou.
Reeleita em 2020, para o segundo mandato, a vereadora criticou a maneira como a Educação está sendo deixada de lado, durante a pandemia, e reflete: "A escola é primordial. O país que não prioriza a educação, não prioriza o seu desenvolvimento e não prospera.”


Veja, abaixo, a íntegra da entrevista:


1) Como você lidou com o ambiente masculino da política?
Eu entendia que o meu tratamento era uma forma de me diminuir por ser novata e ter um percurso longo até chegar no lugar onde os vereadores protagonistas estavam. Por isso, eu decidi já chegar marcando as posições, naquele momento foi a vice-presidência da Comissão de Constituição e Justiça. E, em menos de um ano, consegui aprovar um projeto de lei com assinatura de 52 dos 55 vereadores, a única lei apoiada por um prêmio Nobel, que foi o Marco Legal da Primeira Infância. Entregando resultados palpáveis e concretos, provei minha capacidade como vereadora e mulher, mostrando que a política é um espaço que deve ser ocupado por nós mulheres.

 
2) Como enfrentar as barreiras impostas?
A dificuldade do mandato, por ser mulher, vem de todos os lados, tanto dos homens quanto das mulheres. Mas, eu sou determinada: não pedi licença para entrar, cheguei lá por voto popular. Eu represento uma parcela da sociedade que acredita nas ideias que eu defendo e espera compromisso meu com esses princípios e valores, portanto, não peço licença e, não aceito que nenhum homem ou ninguém retire nada do espaço que eu conquistei pelo voto popular. Além disso, também, não aceito o machismo reverso: mulher tentar me prejudicar para alcançar determinado objetivo fora das regras democráticas.


3) Um dos problemas da política é a sub-representatividade da mulher, apesar de ela ser maioria na sociedade. Como mudar essa lógica?
A igualdade que a gente tanto sonha é conquistada no dia a dia com força no trabalho de cada uma. Incentivar mais mulheres a se candidatarem é o mínimo. Mas, o exemplo de mulheres que chegaram na política e estão arrebentando, apresentando mais resultados que grande parcela dos homens, é mais do que um convite: é uma demonstração cabal e um estímulo para as mulheres que hoje estão pensando se devem ou não entrar na política. Eu enfrentei todas as dificuldades possíveis: me candidatei grávida, meu filho nasceu na pré-campanha, entre uma troca de fralda e uma amamentação, eu encontrava espaço para o meu trabalho, portanto, é possível. Mas, o primeiro passo quem precisa dar é a mulher. A sociedade tenta limitar os espaços da mulher, mas, ela precisa ocupar o espaço que acha que tem que ocupar e, a política é um desses espaços.


4)  A primeira infância é sua bandeira desde o início. Quais dificuldades enfrentou e quais conquistas? 
Essa pergunta me traz muitas lembranças. Desde quando me chamavam de menininha nos primeiros dias da Câmara de Vereadores até a ascensão do projeto. Um projeto que muda a estrutura total de como a primeira infância é percebida e recebida pela sociedade. Além de uma conquista enorme para a população paulistana foi uma mudança de patamar e respeitabilidade para mim. Esse projeto tem um simbolismo muito grande na minha carreira e tudo que representou na cidade, por exemplo, graças ao meu projeto São Paulo, o déficit de primeira infância nas creches foi zerado. 
Até então, esse tema estava restrito a estudiosos, mas, agora, está se tornando realidade e esse é um caminho sem volta, basta ver que se tornou pauta recorrente dos políticos e das eleições.
O Marco Legal determina que a criança é de responsabilidade de todos: pais, mães e sociedade, a criança não pode ficar abandonada à própria sorte. 


5 ) Qual sua preocupação em relação aos efeitos da pandemia na Educação do país e no futuro das crianças?
É muito alta. Hoje, é impossível mensurar as consequências no desenvolvimento das crianças por conta da pandemia. A taxa de evasão escolar, diante da permanência das escolas fechadas, cresceu e colocou o Brasil no mesmo patamar de duas décadas atrás. Essa é uma sinalização do que vai acontecer no desenvolvimento socioeconômico no Brasil. Quando o país não tem compromisso com o futuro e desenvolvimento das nossas crianças, estamos colocando em risco o nosso instinto de nação. Os futuros economistas, advogados, jornalistas, engenheiros, arquitetos e até mesmo o presidente da República serão resultados desse caos, da irresponsabilidade e da imprudência de hoje em dia. É importante essa reflexão: qual o futuro estamos construindo para essa criança? Nenhum país ficou com as portas das escolas fechadas tanto tempo. A escola é primordial. O país que não prioriza a educação não prioriza o seu desenvolvimento e não prospera. 



** Os artigos/entrevistas publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista da Abrig.