Simone Tebet: "O lugar de mulher é onde ela quiser".

Como uma sociedade pode se tornar mais justa e igualitária para homens e mulheres: sem privilégios, sem barreiras ou discriminações, em que oportunidades de trabalho são equânimes e o julgamento imparcial? Em entrevista exclusiva de estreia da revista digital da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais, senadora Simone Tebet (MDB/MS) fala sobre a importância do feminismo nas conquistas das mulheres nos últimos anos, prega uma política proativa para melhorar a relação família-trabalho e defende a construção de uma sociedade em que homens e mulheres caminham juntos.


Além disso, mostra como a sensibilidade feminina é capaz de melhorar a gestão pública e de responder aos maiores desafios da atualidade, como a pandemia do coronavírus.


Leia abaixo a entrevista:


1) A história contemporânea das mulheres é feita de primeiras vezes. Como você se vê nesse contexto?

Na minha trajetória de vida pública, fui a primeira muitas vezes. Isso me orgulha, mas também me entristece por saber que, em pleno século XXI, nós, mulheres, ainda temos dificuldade para ocupar espaços de destaque e de poder. Sei da minha responsabilidade e também reconheço o papel importante de abrir as portas para que outras mulheres também possam passar.


2) Desde o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, a sociedade construiu um modelo de sucesso feminino bastante referenciado no modelo masculino de sucesso. Você entende que há uma demanda por novos modelos?

Certamente. Homens e mulheres se complementam nas suas características e nas suas qualidades diversas. Não queremos ocupar o lugar deles. Queremos o espaço que nos é devido para, lado a lado, construirmos uma sociedade mais justa e igualitária. Somos reconhecidas pela nossa sensibilidade, pelo nosso olhar holístico. Também não queremos ser reconhecidas, apenas, por sermos mulheres, mas pela nossa capacidade intelectual e profissional.


3) É possível, na sua opinião, que consigamos conciliar melhor família e trabalho? Através de mudanças em quais áreas?

A dupla, tripla, jornada é um dificultador na inserção da mulher no mercado de trabalho e na conquista por salários mais igualitários, ainda que no exercício da mesma função. Mesmo assim, segundo o IBGE, 45% dos chefes de família são mulheres.

Para melhorar a relação família-trabalho, temos de garantir um escopo de direitos e a garantia de serviços públicos essenciais, como a disponibilidade de creches e escolas de educação infantil, para que as mulheres possam trabalhar enquanto seus filhos estão seguros no ambiente escolar. 



4) São comuns as perguntas feitas a você que não teriam sido feitas a um homem na sua posição?

Imagino que, provavelmente, homens não escutem perguntas sobre preconceito e  dificuldades enfrentadas para entrar na vida pública. Ou mesmo questionamentos sobre assédio e comentários ‘feministas’ (machistas, no nosso caso).


5) Pesquisas acadêmicas e experiências de outros países apontam que a responsabilização parental pelo cuidado com os filhos recém nascidos melhora o envolvimento de ambos os responsáveis na sociedade após o nascimento. Você acredita que podemos ter espaço para o debate sobre licença parental e sua ampliação temporal aqui no Brasil?

Sabemos que a licença parental existe em alguns países e significa a possibilidade de mães ou pais poderem optar pela licença remunerada para cuidar dos filhos. Isso é uma evolução de cada sociedade. Não sei se o Brasil já está maduro para isso, mas eu acho muito válido e justo que os pais tenham o direito de estarem mais próximos dos filhos enquanto a mulher ganha o mercado de trabalho. Isso tem de ser uma decisão de cada casal e da realidade profissional de cada um. Nada impede que possamos debater e amadurecer esta ideia no Congresso.

 


6) Há uma expectativa crescente de que mulheres líderes sejam menos suscetíveis à corrupção e melhores gestoras dos recursos públicos. Essa não seria uma responsabilidade a mais imposta às mulheres, já que tratamos de compromissos de todo os cidadãos?

Enxergo como uma validação da capacidade e do caráter da mulher. Talvez por sermos mães, tenhamos intrinsecamente mais zelo em relação às nossas responsabilidades para com o próximo. Não vejo como uma carga a mais. Vejo como um elogio.

Em relação à boa gestão, estamos cheios de exemplos na atualidade. A jovem primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, por exemplo, tem dado lições ao mundo e demonstrado como planejamento, agilidade e medidas pontuais são importantes para minimizar os impactos da pandemia de Coronavírus naquele País. Isso é exemplo de boa gestão, de empatia e de cuidado com o próximo.


7) Empatia é comumente apontada como uma característica naturalmente feminina. Essa poderia ser, na sua opinião, uma justificativa para os bons resultados dos governos femininos no enfrentamento da pandemia?

Certamente. A capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir a dor do outro, é fundamental. Infelizmente, aqui no Brasil, o negacionismo insistente tem levado à morte de seres humanos e à decadência da nossa economia.


8) Ainda há preconceito com as mulheres que tratam de temas ligados às demandas femininas, como a equidade de gênero?

O feminismo é um movimento importantíssimo sem o qual não teríamos chegado ao patamar que estamos hoje. Ao longo do tempo, o feminismo foi mudando, e nós já estamos na quarta onda. A cada batalha vencida, novas bandeiras de luta vão surgindo. Mas, infelizmente, há quem entenda o movimento como “mimimi”, ou pior ainda, como coisa de “feminazi”. O julgamento preconceituoso e machista nos deixa ainda sob o manto da discriminação, da validação da violência e da desigualdade. Sou contra qualquer tipo de radicalismo, seja de que lado for. Acredito que ainda precisamos, enquanto sociedade, amadurecer muito.



9) Vemos que as jovens profissionais mostram cada vez menos disposição em se enquadrarem nos modelos construídos ao longo do tempo com base nos estereótipos de gênero. Você tem essa percepção? Entende que essa pode ser a construção de um novo padrão de comportamento?

Felizmente, existe o entendimento cada vez maior de que lugar de mulher é onde ela quiser. E mais, ela não precisa pedir permissão para mostrar sua capacidade e competência. A mulher de hoje não aceita mais o assédio, sabe que não está em posição de inferioridade.

Sou mãe de duas jovens e percebo esta diferença no comportamento delas. Sou de uma geração em que a gente achava normal determinados comentários e nos acomodávamos com determinados papeis. Felizmente, há muita mudança em curso e estamos seguindo rumo a uma sociedade de mulheres empoderadas.


10) Tem sido muito comum ouvir de mulheres jovens que pretendem adiar a maternidade ou então não ter filhos para se dedicarem à carreira. Em muitas situações, não por escolha, mas por uma demanda crescente dos ambientes de trabalho. Você entende que é possível criar ambientes de trabalhos mais acolhedores às mulheres com filhos? Através de quais estratégias?

Antigamente, a mulher era criada para casar e ter filhos.  Hoje, ela é criada para ser feliz. E ela escolhe. Pode ser dona de casa, mãe, profissional de destaque. Pode seguir o caminho que lhe convier. Isso já é um grande salto.

Há um movimento natural da sociedade de as mulheres terem filhos cada vez mais tarde, após se consolidarem no mercado de trabalho.

Certamente, podemos ampliar o debate no Congresso Nacional sobre novas legislações que confiram mais direitos e garantias às gestantes, lactantes e adotantes.

Eu mesma fui relatora de uma lei que confere direitos e garantias a advogadas gestantes, como a preferência na ordem das sustentações orais e das audiências e o acesso a creche, onde houver, ou a local adequado ao atendimento das necessidades do bebê.

A licença maternidade para o serviço público já foi estendida para 180 dias e há iniciativas para que seja assim também na iniciativa privada. A universalização das vagas em creches e pré-escolas ainda é uma meta importante a alcançar.


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