"Precisamos vencer a síndrome da impostora e acreditar que somos capazes de ocupar esses espaços", diz Raiane Paulo

Coordenadora de relacionamento com o Poder Público pela Oficina Consultoria e integrante do coletivo Pretas e Pretos em RelGov, Raiane Paulo atua em iniciativas de equidade, diversidade e inclusão, como mentora do projeto Lobby Social. Participou recentemente da 1ª Conferência Internacional de Mulheres em RIG  e falou sobre projetos de capacitação que visam a ampliar a participação de mulheres pretas em cargos de chefia. Em entrevista, abordou as dificuldades enfrentadas no mercado de trabalho, a síndrome da impostora e, ainda, as ações coletivas na atividade de relações institucionais e governamentais. Confira.


ABRIG: O que podemos mudar nas ações coletivas na área de RIG?


RAIANE: Adotar, principalmente, um olhar de parceria e entender as necessidades do outro, que é o que a gente vem fazendo com os coletivos. É justamente nesse espaço que a gente troca experiências e contatos importantes, ouve e aprende com o próximo. Acredito que esse movimento de olhar ao redor para entender quais são as melhores práticas é o grande diferencial que temos nos coletivos.


ABRIG: Quais as principais dificuldades que as mulheres pretas enfrentam no mercado?


RAIANE: As mulheres, de modo geral, são sempre vistas como aquelas com papel de acalmar as situações e que talvez não tenha tanto conhecimento técnico. Já ouvi de um chefe que nós [mulheres] estávamos na reunião para embelezar o ambiente. Para as mulheres pretas é pior, pois elas são sempre vistas como alguém que está ali para servir, para fazer a ata, para produzir conteúdo, mas nunca vista como a pessoa que vai contribuir de forma relevante e com as informações fundamentais para aquela reunião. A maior barreira que enfrentamos é, justamente, conseguir ter voz, ocupar espaços e, além de ocupar, que esses espaços sejam reconhecidos. Muitas vezes as mulheres chegam ao cargo de liderança, mas ela são desacreditadas e silenciadas. Nesse sentido, a mulher preta precisa de um duplo esforço.


ABRIG: É comum que muitas mulheres possuam formação técnica igual ou superior aos homens e, ainda assim, tenham dificuldade de ocupar os mesmos cargos? Em sua opinião, por que isso acontece? Existe mudança?


RAIANE: Eu acho que, sim, existe mudança. O perfil “Se candidate, mulher!” no LinkedIn traz uma pesquisa interessante que aponta que ao procurar emprego, os homens se candidatam a vagas para as quais só atendem a 30% dos pré-requisitos e são, em alguns casos, contratados para a função. Já as mulheres só se candidatam quando preenchem 90% das necessidades daquela vaga.


Há, nas mulheres, uma preocupação constante de provar sua capacidade. É comum que tenhamos que estudar mais para nos tornarmos referência na nossa área, por isso, muitas das vezes somos mais bem preparadas tecnicamente. É importante que mantenhamos o interesse pelos estudos, mas nós também precisamos vencer a síndrome da impostora e acreditar que se ocupamos um cargo é porque somos capazes e merecemos ocupar esse espaço.


Em muitos casos nós abrimos mão dos nossos espaços para um colega por acreditarmos que ele está mais bem preparado e, com isso, deixamos de ocupar posições importantes. Isso é fruto da sociedade machista em que a gente vive. Desde a infância escutamos que não somos capazes. As opções de brinquedos para os homens, por exemplo, são vastas, eles podem ser tudo o que quiserem. Já as mulheres ganham brinquedos relativos ao cuidado do lar e da família. Cabe a nós desconstruir essas ideias e ter consciência no nosso dia a dia, pois geralmente essas atitudes estão intrínsecas, nem percebemos nossas atitudes.


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