Renata Abreu:  "Quando a mulher não precisar lutar mais por uma sociedade igualitária, viveremos em um mundo muito melhor".

A deputada Renata Abreu, presidente nacional do Podemos, defendeu em entrevista exclusiva à edição digital da Revista da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig) a necessidade de a mulher combater o ambiente masculinizado da política com uma abordagem sensível e construtiva, sem criar um ambiente negativo de disputa de gênero.


“Vivemos numa sociedade machista e o homem subestima a mulher. Mas é preciso reverter isso e usar os potenciais a seu favor. Não vendo o homem como adversário e não fazer política como os homens fazem. Dessa forma, é possível construir um ambiente positivo e fazer suas pautas andarem de forma mais fácil”, afirmou a deputada em entrevista por telefone.


Para ela, a sociedade ainda precisa lidar melhor com a questão da maternidade, oferecendo melhores opções para a mulher adequar sua carreira à criação dos filhos de forma a não criar desequilíbrios ou aprofundar as diferenças de gênero. “Existem distorções que precisam ser corrigidas pela Câmara para garantir que a mulher não seja prejudicada nem na maternidade, nem na representatividade da sociedade no Parlamento”, defendeu.


A deputada afirmou ainda que a grande mudança que gostaria de enxergar na sociedade é na mentalidade masculina. “A mudança é para o homem. Vivemos em um sistema cultural de dominação. Precisamos romper esse problema cultural”,  disse. “Quando a mulher não precisar lutar mais por uma sociedade igualitária, viveremos em um mundo muito melhor”, acrescentou.


Veja abaixo os principais pontos da entrevista.


1) Qual é a principal dificuldade da mulher dentro da política?

A política é um espaço muito masculino. Mas nós temos de fazer política como mulher e evitar ter o homem como referência. Esse é o grande desafio: entender que conseguimos ir mais longe fazendo política como mulher, com carinho, cuidado. Foi assim que consegui grandes avanços no meu mandato. A gente vive numa sociedade machista e o homem subestima a mulher. Mas é possível usar isso a seu favor e, como não te veem como adversário, usar isso para impor sua pauta e sua própria agenda. É possível construir de forma positiva e fazer as coisas andarem de forma mais fácil.


2) Quais os grandes desafios para a mulher no Parlamento?

É a questão da maternidade, isso é muito difícil. Ficar longe dos filhos dói muito. Existem distorções a serem corrigidas na Câmara. Eu mesma tive muita dificuldade porque não existe a licença maternidade, apenas a licença saúde. Essa é uma peculiaridade da atividade que precisa ser regulada.


Na Câmara, é possível apontar um avanço no processo legislativo com a pandemia?

A votação híbrida tem sido um grande avanço. Só o custo de deslocamento e moradia para o estado é gigantesco. Numa votação remota, reduzimos o custo e, consequentemente, temos um resultado melhor para o estado.


3) O combate à corrupção tem sofrido ataques diversos nos últimos tempos. Como evitar que os avanços dos últimos anos retroceda?

A Lava Jato passou a limpo um sistema que existia e era a realidade de se fazer política. Há um retrocesso seríssimo promovido, sobretudo, pelas atitudes do governo federal. Infelizmente seguimos assistindo casos de corrupção em plena pandemia, com desvios de compras de respiradores. Têm pessoas morrendo por conta desses desvios. Isso deveria ser crime hediondo.


4) Nesta pandemia, países governados por mulheres apresentaram resultados positivos, como é o caso da Nova Zelândia. Esse é o exemplo de como a política liderada pela mulher pode fazer a diferença?

Antes de qualquer coisa, é importante frisar que sou contra a guerra de sexos e a briga homem e mulher. Mas é fato que só a mulher sabe o que é ser mãe, gerar um filho. Ela tem um cuidado diferente com a família. E a mulher encara um problema dessa magnitude como se fosse algo na própria família. Ou seja, ela vê a administração pública como um filho. Você cuida, trata bem, adota as melhores escolhas para ele crescer bem e se desenvolver adequadamente, ou seja, há mais sensibilidade no trato da coisa pública, não é um mero negócio, como muitos tratam.


5) Qual a principal mudança que tem de ocorrer na sociedade hoje para a mulher ter mais oportunidades e lutar em pé de igualdade com o homem?

A mudança é para o homem. Vivemos em um sistema cultural de dominação. Precisamos romper isso, porque é um problema cultural. A maioria dos homens sente ciúmes da mulher quando ela é bem sucedida. Não é qualquer homem que aceita o ambiente de igualdade. Quando a mulher não precisar lutar mais por uma sociedade igualitária, viveremos em um mundo muito melhor.


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