Stella Matos: “Nós, os RelGov, somos os bandeirantes, vamos na frente abrindo os caminhos, mostrando direção para os parlamentares”

Formada em Administração, com MBA em Administração Pública e mestrado em Economia com ênfase em Setor Público, a atuação com políticas públicas sempre esteve presente na vida da Stella Matos que, há dois anos, atua como Relações Institucionais e Governamentais do Banco do Brasil. Mas, antes disso, passou 12 anos atuando no Executivo Federal. Com a experiência de quem já atuou dos dois lados da mesa, Stella fala, em uma conversa exclusiva para a Revista Abrig Digital, sobre a importância da regulamentação da atividade, o preconceito com o lobby e o que é imprescindível para ser um bom profissional de RelGov.


1) O que faz um profissional de Relações Institucionais e Governamentais?

A primeira coisa que é importante entender é o campo de atuação do profissional. Falando da casa legislativa, por exemplo, a Câmara tem o objetivo de representar o cidadão; os deputados nos representam. Quando um deputado requer uma audiência pública, seu objetivo é esgotar o tema, e o papel do profissional de Relações Institucionais e Governamentais é contribuir com esse tema. O parlamentar sozinho não tem toda a informação necessária. Para trazer mais benefício para as pessoas, em um país imenso como o Brasil e com capilaridade gigante, os temas precisam ser debatidos à exaustão. Têm coisas que funcionam no Norte do Brasil que não funcionam no Sul, ou no Centro-Oeste, por exemplo. Então o RelGov tem esse papel de facilitador, ele leva informação para o parlamentar, contribuindo para o debate e ajudando a achar a melhor solução que vai atender ao país todo. Eu digo que nós, os RelGov, somos os bandeirantes, vamos na frente abrindo os caminhos, mostrando direção para os parlamentares.


2) Por que a regulamentação da atividade de RIG é importante?

A atividade de RelGov é um desafio. Se você olhar hoje dentro do Congresso Nacional, estima-se que têm cerca de 7 mil stakeholders fazendo lobby, desde sindicatos, cooperativas, entre outros. Então, os parlamentares são bombardeados, abordados o tempo todo. A regulação da atividade traria mais segurança e transparência, não só para a nossa atuação, mas também para os parlamentares, dando mais tranquilidade para a prestação de contas de quem eles recebem, com quem conversam e nas decisões tomadas.


3) No Brasil, as vezes a palavra lobby carrega um peso meio pejorativo, que não acontece em outros países. Ao que se deve isso?

O Brasil tem uma democracia muito jovem e de rupturas democráticas, de certa forma frequentes; foram duas em um período de 20 anos. Eu imagino que isso tenha interferido no nosso processo político, como um todo. Fazendo uma comparação com os EUA, por exemplo, eles têm um processo democrático bastante constante, que é bem variável, mas que não houve um rompimento. Os incêndios acontecem, é natural, mas é um incêndio que já está previsto, é uma linha constante que permite que processos tenham andamento. Aqui no Brasil, a gente só vive em tempo de incêndio que não nos permite perenidade para que a gente consiga introduzir outros temas na agenda legislativa do país. Então, além do óbvio, a corrupção, eu acrescento esses dois pontos: primeiro o quanto a nossa democracia é jovem e, segundo, a falta de perenidade na agenda legislativa do país, para que haja espaço dentro do cronograma para tratar outros temas, como por exemplo, a regulamentação da atividade de RIG. Em outras democracias, essas atividades são legalizadas, porque houve tempo para se debruçar sobre o assunto, para debater.


4) Pode citar um exemplo em que o lobby teve fator decisivo em uma conquista social?

O Pronampe - Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte -, é um exemplo que posso falar com propriedade. O projeto veio do Congresso Nacional para socorrer esse segmento durante a pandemia e houve bastante mobilização. Juntamos bancos e cooperativas e fomos modelando o programa para que ele pudesse sair do papel. Foi preciso diversas reuniões com parlamentares e agentes de interesse para que ele fosse para frente, e não mais um projeto engavetado que não consegue avançar. O lobby precisou acontecer, nós mostramos que o projeto era muito bom, mas que a taxa de juros proposta inicialmente não iria atrair o interesse dos bancos. É uma linha tênue para fazer o projeto sair do papel e para isso é preciso haver um consenso. O programa já está na rua e atendendo milhares de empreendedores.


5) Na sua opinião, o que faz de alguém um bom lobista?

Primeiro, você precisa ser muito correto. Isso é para tudo na vida, mas nessa atividade é primordial. Quem anda com integridade, anda seguro. Você precisa ser correto, é óbvio, você não vai infringir nenhuma Lei, mas falo também de ser correto com o parlamentar, você precisa tratar com transparência com ele. Segundo ponto que é fundamental é ter respeito com todos. Muitas vezes quem faz as coisas acontecerem é a secretária, é um assessor, o chefe de gabinete, e isso inclui também os seus colegas de RelGov. Eu costumo dizer que o único lugar em que os bancos não são concorrentes é na atividade de RelGov. Nossos colegas se ajudam o tempo todo. Às vezes eles estão em uma comissão que eu não consigo estar, porque tem outras comissões acontecendo que te interessam. Então esse relacionamento com os colegas de área também é extremamente importante.


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