Superintendente da CNDL afirma: “as empresas devem se tornar uma voz ativa no enfrentamento da crise climática”

A 27ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas foi realizada em Sharm El Sheikh, Egito, no último mês de novembro. A COP 27 reuniu representantes de mais de 190 países para debater sobre mudanças climáticas e impactos ambientais. O vice-presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig) e superintendente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CNDL) - instituição associada Abrig, Marco Antônio Corradi, falou acerca do tema para a Revista Abrig Digital. Confira:


ABRIG: A COP 27, realizada este ano no Egito, ampliou o debate sobre assuntos urgentes, como a meta de temperatura global, economia de baixo carbono e transição energética e fundo de perdas e danos. O que podemos esperar de resultado concreto após esse intenso debate que trouxe novas demandas para o mercado?


MARCO ANTÔNIO: A maior conquista dessa COP diz respeito à criação, há muito tempo almejada, de um fundo específico de perdas e danos climáticos para países em desenvolvimento e o início de operacionalização de uma plataforma internacional de assistência técnica que auxilie países vulneráveis – a Rede de Santiago.

No que se refere à meta de temperatura global, podemos esperar (e aspirar) que uma quantidade maior de países revise e fortaleça suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) para os próximos anos. Nessa esfera, um resultado concreto, apesar de tímido, foi a criação de um novo Programa de Trabalho para Mitigação (MWP), que pretende impulsionar a instituição de metas climáticas mais ambiciosas pelos países membros.


Além disso, destaco avanços na esfera de redução de riscos e vulnerabilidades, com a concepção de uma Meta Global de Adaptação a ser instituída na próxima COP, e a continuidade das discussões em relação aos mecanismos de mercados de carbono.


Especificamente em relação a demandas para o mercado, esteve em evidência a necessidade de se criar novas formas de promoção do financiamento climático por instituições financeiras e bancos. O lançamento do Plano de Implementação Sharm El-Sheikh pretende encorpar a compreensão sobre possíveis fluxos de descarbonização a serem estabelecidos futuramente. Ressaltou-se a necessidade de uma transição energética que considere fontes de energias renováveis e de baixa emissão de gases de efeito estufa em detrimento de subsídios para combustíveis fósseis.


ABRIG: Segundo algumas notícias veiculadas na mídia, a União Europeia esperava debates mais aprofundados durante a COP 27. Na sua opinião, quais temas deveriam ter ganhado mais destaque no debate?


MARCO ANTÔNIO: A principal crítica dos analistas climáticos que acompanharam o desenrolar da COP 27 diz respeito à falta de ambição dos países membros em relação à mitigação de emissões de gases de efeito estufa e do uso de combustíveis fósseis. É comum que haja um impasse sobre a linguagem que será usada no documento final de negociações internacionais. Nesse sentido, a União Europeia e o Reino Unido esperavam a criação de normas mais rígidas, menos tímidas.


Também considero essa a maior deficiência da Conferência deste ano. Ao analisarmos a situação nacional, por exemplo, presenciamos a instituição de uma “pedalada climática”. Esse termo foi cunhado após o governo brasileiro se utilizar de uma manobra contábil e mudar a base de cálculo da meta nacional de redução de gases. Em termos práticos, isso permitiu que o país não aumentasse a sua ambição de mitigação, contrariando o disposto no Acordo de Paris, que possui regras em relação à obrigatoriedade do progresso (sem retrocessos) das metas climáticas.


A agenda de financiamento também teve dificuldades – questões como a origem dos recursos e como esses serão aplicados ficaram em aberto. Pelo lado positivo, os grandes avanços em relação aos mecanismos de perdas e danos compensaram as falhas em outras esferas de decisão.


ABRIG: Tendo em vista a importância do Brasil no debate ativo quanto às questões de preservação e projetos ambientais, quais ações nacionais serão essenciais para estabelecer bons resultados em prol das decisões da COP 27?


MARCO ANTÔNIO: Para os próximos anos, o foco do governo e do mercado deve ser a retomada da progressividade e da ambição das metas climáticas brasileiras, o fim do desmatamento e a reconstrução das instituições ambientais.

O mercado brasileiro deve se preparar para a continuidade da adaptação agropecuária a uma economia de baixo carbono, e devem ser consideradas soluções baseadas na natureza, como a redução de emissões causadas pela degradação florestal. O uso da terra e a agropecuária respondem pela maior parte das emissões nacionais, e se quisermos continuar a ser um player importante no mercado internacional, teremos que nos adaptar às regras da União Europeia, por exemplo, e inovar em todos os processos.


ABRIG: O Plano de Implementação Sharm El Sheikh apresenta a urgência em trabalhar, de forma mais ampla e multisetorial, contra as crises climáticas, além de proteger e recompor a natureza e seus ecossistemas de forma sustentável. De que forma as empresas podem contribuir para o alcance desses objetivos?


MARCO ANTÔNIO: As empresas devem se tornar uma voz ativa no enfrentamento da crise climática, como parte do conjunto policêntrico e multisetorial de atores de governança. Os planejamentos estratégicos devem ser confeccionados levando em consideração o investimento e a conscientização ambiental, um dos pilares do ESG (Ambiental, Social e Governança). Devemos buscar e estudar modelos energéticos renováveis, pois além de preservar o meio ambiente, são mais econômicos. Existe uma questão que sempre abordo em planejamento estratégico: em vez de sair da caixa, devemos construir novas caixas, ou seja, devemos, enquanto pessoas, empresas e governos, buscar inovar em todos os processos e a questão ambiental deve estar sempre presente.


É importante que as empresas considerarem, também no seu planejamento, o novo perfil de consumidor, o consumidor digital, muito informado e social e ambientalmente responsável. Talvez por influência mercadológica do movimento ESG ou pela urgência das pautas climáticas e sociais, o novo consumidor tem a ética como uma baliza decisiva na hora da compra.



Marco Antônio Corradi é vice-presidente da Abrig e superintendente da CNDL há cinco anos. Bacharel em Administração de empresas, possui pós-graduação em Análise e Inteligência de Negócios, MBA Executivo em Gestão Empresarial e especialização FDC-PAEX em Estratégia, Marketing, Finanças, Processos e Pessoas.


** Os artigos/entrevistas publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista da Abrig.