A participação das mulheres em espaços de decisão tem crescido nos últimos anos, mas ainda convive com desafios relacionados à representatividade, posicionamento profissional, autonomia financeira e equilíbrio entre vida pessoal e carreira. Pensando nesse cenário, a Abrig desenvolveu o curso "Liderança Feminina em Relações Institucionais e Governamentais", uma formação voltada para mulheres que atuam ou desejam atuar na área de Relações Institucionais e Governamentais (RIG).
Com abordagem multidisciplinar, o curso reúne especialistas de diferentes áreas para discutir temas fundamentais para o desenvolvimento profissional feminino, incluindo ambiente institucional, comunicação estratégica, planejamento financeiro e saúde integral. A proposta é oferecer ferramentas práticas para fortalecer a presença, a autonomia e a liderança das participantes em ambientes institucionais e corporativos.
A Abrig conversou com as professoras responsáveis pelos módulos para entender a importância desses temas e o que as participantes podem esperar da formação.
Karoline Lima — Ambiente Institucional e Estratégia de Carreira
O curso “Liderança Feminina em Relações Institucionais e Governamentais” propõe uma reflexão sobre a presença das mulheres em espaços de decisão. Por que esse debate é tão importante atualmente?
Espaços de decisão são os espaços em que a trajetória profissional, conhecimento prático e acadêmico, articulações e reputação são evidenciadas antes mesmo que se possa fazer parte dele. Então, profissionais que buscam ocupar ou ocupam esses espaços com autoridade são questionadas e validadas a todo momento. Quanto a presença das mulheres, num primeiro momento é sempre questionada e a validação é um processo complexo. O debate é fundamental justamente para que seja ensinado, haja esclarecimentos coletivos e normalizem a presença de mulheres antes de quaisquer estereótipos pré-concebidos que as acompanhem ou que tentem lhes impor.
Muitas mulheres enfrentam dificuldades para crescer profissionalmente em ambientes institucionais. Quais são os principais desafios que você observa nessa trajetória?
Parece clichê, mas há uma autossabotagem intrínseca nas mulheres que buscam crescimento profissional sólido e ético, é recomendado sempre uma autoanálise e, quando possível, com ajuda de profissionais e mentores para que se sinta mais confiante para se posicionar e avançar.
Os desafios são inúmeros, desde cultural, trajetória e experiências em sua vida pessoal e profissional que a trouxeram até o lugar que ela ocupa e os papéis que exerce hoje em sociedade, não apenas como profissional, mas como pessoa. Esse contexto todo que lhe dá ou não caminhos e estruturas mínimas para construir um crescimento profissional capaz de superar as inúmeras dificuldades com consciência e estratégia.
Nos ambientes institucionais, é preciso ter autoconhecimento, conhecimento do ambiente onde está ou quer se inserir, além de ter estratégias para saber como lidar com os principais desafios presentes neles, por exemplo, desde ter que se provar a todo momento de que é capaz de realizar atividades, entregar resultados, obter remuneração compatível e ocupar cargos e funções que historicamente sempre foram confiadas e atribuídas aos homens, como é no ambiente da política, dos negócios e a presença em agendas e reuniões que os discutem.
O módulo aborda posicionamento profissional e construção de carreira. Quais competências são essenciais para mulheres que desejam ocupar posições estratégicas?
RIG envolve poder, acesso, representação e permanência. As atividades de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) são estrategicamente conduzidas por um profissional capacitado, que representa a sociedade civil, demonstrando ao poder público o impacto ou a necessidade de suas decisões. Ou por profissionais que representam repartições públicas e dialogam com seus pares públicos, instituições privadas e sociedade civil.
Nos últimos anos, a profissão de RIG cresceu muito no Brasil. Isso se deu por conta de sua importância, que é debatida tanto a nível internacional como nacional, no avanço da luta contra a corrupção e influência.
No Cadastro de Atividades da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), nº 1423-45/2018, a atividade de RIG possui 91 competências descritas, o que demonstra não apenas a sua complexidade, mas como é muito ampla e multidisciplinar.
O que é comum aos diversos setores e instituições que necessitam dessa atuação, são de profissionais com competências de negociação e resolução de conflitos; networking e articulação institucional; resiliência e diplomacia; para as mulheres que desejam ocupar essas posições é essencial ter habilidade para navegar por ambientes historicamente masculinos de poder, mantendo o equilíbrio e a assertividade nas decisões. Além de uma comunicação não-violenta e escuta ativa, competência para compreender as dores e necessidades do interlocutor governamental, facilitando a construção de agendas conjuntas; é uma área de protagonismo, visão transversal, diversidade, inclusão e de liderança colaborativa, pois são muitas esferas de poder e tomadores de decisões influentes envolvidos.
Somado ao senso de urgência, leitura política, análise, escrita técnica, negociação, comunicação executiva, influência, capacidade de construir entendimento e convergência, conduta ética, credibilidade, adaptabilidade, inteligência emocional e presença executiva.
Qual a importância do networking e da construção de relações institucionais para o fortalecimento da liderança feminina?
Relacionamento institucional precisa de propósito, constância e credibilidade.
O networking é construído em primeiro momento com uma exposição, ir a campo e conhecer profissionais e instituições de interesse com a visão de construir relacionamentos institucionais de curto ou longo alcance e prazo. Intuitivamente nesse momento deve-se questionar: quais parcerias construtivas poderão ser extraídas desse relacionamento e em qual momento?
Em segundo momento é preciso ter a capacidade de analisar e medir estrategicamente o que é possível concretizar de fato dos objetivos almejados e das parcerias decorrentes dos relacionamentos construídos. Com isso claro, aprende-se a dialogar, lidar, engajar, valorar e reconhecer com equidade e respeito a todos com quem buscamos ou nos buscam para esse denominado relacionamento institucional.
Para a liderança feminina, conhecer que relacionamento institucional envolve estratégias a serem aprendidas e ferramentas adequadas para utilizar nessa construção, é fundamental. Para as mulheres a palavra relacionamento sempre esteve vinculada a relacionamentos que estão fora do escopo do ambiente político e institucional, logo a abordagem é necessariamente diferente, por isso exige aprendizado e, claro, o apoio e a construção de redes de relacionamentos composto também por outras mulheres líderes que apoiem e sejam mentoras umas das outras.
Que mensagem vocês deixariam para mulheres que desejam fortalecer sua trajetória profissional e estão pensando em participar do curso da Abrig?
Participe. O investimento em si, em capacitação e aprendizado é libertador e isso não é sobre o outro ou sobre lugar. É a liberdade em nós mesmos, às vezes, das nossas limitações pré-concebidas e que só a busca pelo conhecimento e capacitação naquilo que almejamos nos permite avançar e alcançar.
Deniza Gurgel — Comunicação Estratégica e Oratória
O curso trabalha temas como comunicação assertiva, oratória e posicionamento. Como essas habilidades impactam diretamente a trajetória profissional das mulheres?
Competência técnica, sozinha, não garante reconhecimento. A forma como uma mulher comunica suas ideias, conduz conversas e se posiciona influencia diretamente sua credibilidade, visibilidade e capacidade de ocupar espaços de liderança. Comunicação assertiva e oratória são ferramentas que ajudam a potencializar a atividade profissional possibilitando reconhecimento para ocupar espaços de destaque no mercado.
Muitas profissionais possuem conhecimento técnico, mas ainda têm dificuldade em ocupar espaços de fala. Como desenvolver mais segurança e autoridade em reuniões e negociações?
O primeiro passo é se apoderar das nossas capacidades tecnicas e preparo profissional. Vários estudos demonstram que as mulheres possuem mais preparo que os homens, mas tem dificuldade de transpassar isso. Ao desenvolver segurança sobre o próprio valor, passamos para a etapa de preparar-se adequadamente, com técnicas de comunicação que fortaleçam a presença e a argumentação, ajudam a transmitir consistência, confiança e domínio do que se está dizendo.
O módulo também aborda marca pessoal e presença feminina em ambientes institucionais. Qual a importância de aprender a se posicionar estrategicamente?
As pessoas formam percepções sobre quem somos a todo o tempo. Posicionamento estratégico é alinhar comunicação, comportamento e imagem aos objetivos profissionais, direcionando as percepções dos outros pelos caminhos que queremos. Isso amplia oportunidades, fortalece a reputação e aumenta as chances de crescimento na carreira.
Que mensagem vocês deixariam para mulheres que desejam fortalecer sua trajetória profissional e estão pensando em participar do curso da Abrig?
Invistam em vocês mesmas. Conhecimento técnico abre portas, mas comunicação, posicionamento e presença ajudam a permanecer e crescer dentro desses espaços. Este curso é uma oportunidade para desenvolver competências que fazem diferença em qualquer área profissional e que podem acelerar resultados ao longo de toda a carreira.
Graziele Barros e Lucas Marques (convidado)— Autonomia Financeira e Planejamento de Vida e Carreira
A autonomia financeira é um dos temas centrais do curso. Por que esse assunto é tão importante para o desenvolvimento profissional e pessoal das mulheres?
Poder escolher caminhos! A autonomia financeira suporta escolhas. Escolher fazer um curso, mudar de emprego, mudar de cidade, onde passar as férias. Não controlamos tudo, mas a autonomia financeira amplia a nossa capacidade de ação sobre o que controlamos, e é nessas variáveis que faz sentido investir o nosso recurso mais valioso: tempo.
O curso traz discussões sobre planejamento financeiro, contratos PJ e organização de vida e carreira. Quais aprendizados práticos as participantes podem esperar desse módulo?
Explorar a relação entre expectativas, escolhas e planejamento. Antes de falar de números, é importante entender o que estamos tentando construir.
A partir daí, discutiremos questões práticas. Sabemos quanto “custa” a nossa vida? Temos reserva para lidar com imprevistos? Por quanto tempo conseguiríamos nos sustentar se a renda fosse interrompida? O contrato PJ me permite usufruir férias (remuneradas) de forma direta ou indireta? Liberdade contratual e segurança são tratados de forma adequada à minha realidade? Capacidade de trabalho suspensa: quais as tratativas?
Também falaremos sobre longevidade, sobre o financiamento de projetos futuros e sobre a importância de revisar planos ao longo do caminho. Planejamento não é um documento que se faz uma vez, mas um exercício contínuo de monitoramento e ajuste de rota.
Que mensagem vocês deixariam para mulheres que desejam fortalecer sua trajetória profissional e estão pensando em participar do curso da Abrig?
Muitas vezes adiamos (ou até ignoramos) decisões importantes porque estamos ocupadas com as urgências do presente; outras vezes acreditamos que determinadas condições permanecerão para sempre, quando sabemos que mudanças e imprevistos fazem parte da vida
A autonomia financeira e planejamento não garantem que tudo dará certo, mas ampliam a nossa capacidade de escolha quando as circunstâncias mudam. Se eu pudesse resumir a principal mensagem do curso em uma frase, seria esta: dedicar atenção às variáveis sobre as quais temos algum controle, é nelas que nossas escolhas produzem os maiores efeitos.
Tacyra Valois — Bem-Estar na Vida Profissional e Saúde Integral
O curso propõe uma reflexão sobre saúde feminina e vida profissional. Por que ainda é tão difícil falar abertamente sobre esses temas nos ambientes de trabalho?
Ainda é difícil falar sobre saúde feminina nos ambientes de trabalho porque, durante muito tempo, a vida profissional foi organizada a partir de uma ideia de neutralidade que, na prática, muitas vezes ignorou as diferenças concretas entre homens e mulheres. Temas como ciclo menstrual, maternidade, menopausa, saúde mental, sobrecarga de cuidado, exaustão e envelhecimento feminino ainda são tratados como questões privadas, quando também têm impacto direto sobre permanência, desempenho, liderança e qualidade de vida.
Em rotinas de alta exigência profissional, quais estratégias de cuidado e equilíbrio você considera essenciais para preservar a saúde e a qualidade de vida das mulheres?
A primeira estratégia é deixar de tratar o autocuidado como algo secundário ou como recompensa depois que todas as demandas forem atendidas. Cuidado precisa ser parte da estratégia de vida e de liderança. Isso envolve sono, alimentação, movimento, acompanhamento médico, pausas reais, vínculos afetivos, limites profissionais e atenção à saúde mental.
Também considero essencial que as mulheres aprendam a reconhecer sinais de exaustão antes que eles se transformem em adoecimento. Em ambientes de alta exigência, há uma tendência de confundir força com resistência infinita. Mas liderança sustentável não é aquela que suporta tudo; é aquela que consegue preservar energia, clareza, presença e capacidade de decisão ao longo do tempo.
Por fim, é importante lembrar que equilíbrio não é uma equação perfeita e individual. Ele depende também de redes de apoio, divisão de responsabilidades, ambientes institucionais mais conscientes e lideranças capazes de reconhecer que saúde, cuidado e desempenho profissional não são dimensões separadas. Saúde é base para uma trajetória consistente, sustentável e capaz de gerar contribuição de longo prazo.
Falar sobre saúde feminina no trabalho não significa reduzir as mulheres à sua biologia, mas reconhecer que trajetórias profissionais são atravessadas por condições sociais, físicas e emocionais. Quando esses temas não são nomeados, eles continuam existindo, mas de forma silenciosa, individualizada e, muitas vezes, culculpabilizante desafio é transformar silêncio em escuta, escuta em política institucional e política institucional em ambientes mais saudáveis, justos e produtivos.
Muitas condições de saúde feminina ainda são invisibilizadas no ambiente profissional. Como isso impacta a trajetória e o bem-estar das mulheres?
A invisibilização tem um efeito profundo porque faz com que muitas mulheres administrem sozinhas dores, sintomas, cansaço, responsabilidades familiares e pressões profissionais, tentando manter uma aparência permanente de disponibilidade e alta performance. Isso pode comprometer a saúde física, a saúde mental, a autoconfiança, a produtividade e até as escolhas de carreira.
Quando uma organização não reconhece essas dimensões, ela corre o risco de perder talentos, reduzir a presença feminina em posições de liderança e naturalizar desigualdades. Muitas vezes, a mulher deixa de avançar não por falta de competência, mas porque o ambiente não foi desenhado para reconhecer suas condições reais de vida. Trajetórias sustentáveis exigem que saúde, cuidado e trabalho deixem de ser tratados como temas separados.
Que mensagem você deixaria para mulheres que desejam fortalecer sua trajetória profissional e estão pensando em participar do curso da Abrig?
Eu diria que fortalecer uma trajetória profissional não é apenas desenvolver competências técnicas ou ocupar mais espaços de poder. É também aprender a sustentar essa trajetória com saúde, sentido, equilíbrio e consciência sobre os próprios limites e escolhas.
Este curso é um convite para que mulheres em Relações Institucionais e Governamentais possam refletir sobre liderança de forma mais integral. Não basta chegar aos espaços de decisão; é preciso permanecer neles com voz, saúde, lucidez e capacidade de influenciar agendas relevantes.
Minha mensagem é: participar desse curso é investir não apenas na carreira, mas na forma como cada mulher deseja construir sua presença, sua liderança e seu futuro profissional. Liderar também é aprender a cuidar de si, para seguir contribuindo com mais potência, responsabilidade e liberdade.
A formação será realizada nos dias 22, 24, 29 e 30 de junho de 2026, em formato online, com carga horária total de 12 horas.
As inscrições já estão aberta, participe: https://www.sympla.com.br/evento-online/curso-online-lideranca-feminina-em-relacoes-institucionais-e-governamentais/3430900?referrer=www.flow.page&referrer=www.flow.page
